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Quarentena | O diário de #1 a #5

por M.J., em 04.05.20

bem sei que não se deve repetir conteúdo em várias redes sociais. no meu caso então, que as pessoas são as mesmas em quase todas as plataformas, é um bocado parvo.

mas este blog acompanha-me há muitos, muitos anos.

gosto dele.

é um pedacinho de casa. e por isso, mesmo contra as regras, decidi passar para ele o diário que fiz no instagram (e automaticamente no facebook) desta quarentena, ou isolamento, ou o que quiserem chamar. 

o objetivo era escrever aqui mas acabei por me render ao instagram. porque é mais fácil, mais rápido, a interação é maior. 

este blog é como a minha casa de infância, onde permaneço e fico no meu quarto, devidamente arrumado e limpo pela mamã, exatamente como o deixei, à minha espera para sempre.

as redes sociais são as casas onde vou passando e vivendo, sabendo ainda assim, do que me espera no lar da minha infância.

 

o diário fica aqui, para aqueles que apenas estão comigo nesta casa de infância.

para aqueles que desde o início entram aqui, pela porta de entrada, e se sentam numa das mesas à espera do café e da jola, jogando à sueca ao lado da janela.

[já se quiserem ver as fotos dos dias vão mesmo ter de passar pelo instagram. basta clicar em cima dos títulos].

 

#1 | Dia 20 de isolamento | 30 de março

Decidi escrever um diário enquanto olhava para uma parede.
Por pura necessidade, caminhei na estrada deserta perto de casa. Não vi ninguém. Apanhei vento e vi uma joaninha.
Quando cheguei olhei 10 minutos para o jardim que não é jardim. Tínhamos decidido fazê-lo em março. Adiou-se.
Usei bifes de peru, esquecidos no congelador, para o almoço. Falei com uma das poucas pessoas que amo no mundo e que continua a dar o corpo às balas naqueles que são atualmente os heróis nacionais.
Tentei ensinar, mais uma vez, o miúdo a caminhar sozinho. Decidi fazer um bolo, que ainda não fiz, e criei uma lista das coisas a fazer nos próximos tempos e que inclui limpar o exaustor, passar roupa que está no cesto desde dezembro, mandar vir o kobo e fazer um album online para a mamã.
Esforcei-me muito para não deprimir. 
Escolhi como música do dia: distance, de Norma Winstone.

 

Dia 2 | 21 de isolamento| 31 de março
Os senhores da Auchan não entregaram metade das coisas que comprei online. Não só esperei horas para entrar no site, como só recebi metade. Cancelei a outra compra.  Não é possível que não haja qualquer tipo de porco ou de peixe que encomendei. Nem chocolate. E nem sequer ligaram a avisar que se iam atrasar na entrega um dia. Recomendo zero. 
Muito chateada por isso. Amanhã preciso de ir às compras ao continente.
Arre.
Em contrapartida comprei o kobo na fnac. Se me enviam só metade do dito não respondo por mim.
Criança tem um dente de trás a nascer. Com tal força que fez uma espécie de afta. Está rabugento e deixo-o ver TV. Eu também estaria se tivesse uma cratera nas gengivas.
Choveu a manhã toda e a tarde vai pelo mesmo caminho.
Afinal não passei a ferro roupa nenhuma. Nem limpei o exaustor ou os rodapés. Mas fiz o bolo e uma lista de todas as coisas do trabalho da empresa que sempre fui adiando por falta de tempo.
E fui procurar o croché que fazia antes para retomar.
Estar parada é que não.
As flores que trouxe à coisa de um mês de casa da mamã estão a morrer e dei comigo a chorar por isso.
Não perguntem.
Falei meia hora com ela ao telemóvel, a rir muito e cheia de força. Expliquei-lhe (mais a mim do que a ela, mas enfim) que era impossível estarmos juntos agora. Custa-lhe sobretudo pelo miúdo, nesta fase que passa tão rápido e que ela está a perder. Mas é isso ou perder todas as outras fases futuras.
Não se arrisca.
Fiquem em casa. Está chuva e frio, não vale a pena sair. E ouçam boa música.
A de hoje é “fim do Céu” dos Quinta do Bill com letra de José Luís Peixoto. 
Se isso não vos der asas à alma não sei o que pode dar.

 

Dia 3 | 22 de isolamento | 1 de abril
Ora então fui às compras de manhã. Estava sol, não havia gente na rua e até cantei com a rádio.A pensar encontrar a III Guerra Mundial no Continente tal como da última vez, fiquei surpreendida: pouquíssima gente, sem filas no talho ou na peixaria, sem encontrões nos frescos e legumes, com tudo nas prateleiras e sem aumentos de preço. E funcionárias a desinfetar as mãos entre cada cliente.
Além disso pairava um ar de “normalidade”. Música, pessoas a rir, gente a trabalhar.
Quando passamos tanto tempo em casa a ouvir notícias, sem sair para nada tendemos a achar que o mundo está numa redoma de medo e foi muito satisfatório perceber que há normalidade mais não seja no supermercado.
Comprei um ovo de Páscoa da kinder para o miúdo (é para nós, mas temos de tirar a foto da praxe) e ovinhos de chocolate, só para lembrar a época.
Não há padre nem encontros de família mas seja cão se não há chocolates e flores.
Almoçamos salmão, para tirar a barriga de miséria, e como esteve sol acabei por lavar roupa. Enquanto a estendia o miúdo arrancou erva que tentou comer, foi a gatinhar até ao fundo do pátio para tentar lamber uma pedra e atirou uma bola para debaixo do carro.
Ontem à noite adormecemos enquanto víamos episódios antigos de star trek. Mais uma vez não li nada. E ainda tenho a roupa à espera de ser passada.
Queria muito escrever no blog mas o sapo está a precisar de uma boa app para isso. Fica a dica.
Dizem que estamos a conseguir achatar a curva e que as escolas provavelmente não vão abrir este ano. 
Tenho saudades da educadora do meu filho, de ir almoçar fora e tomar café na Praia da Barra. E dava o dedo mindinho para passar uma tarde na Costa Nova com o miúdo na relva e a brisa com cheiro a mar.
Como tenho os dedos todos não há hipótese que não seja ficar em casa.
E ouvir música a sério. 
Hoje Mad World na versão dos  Imagine Dragons. 

 

Dia 4 | 23 de isolamento | 2 de abril
Finalmente consegui voltar a trabalhar no escritório depois do rapaz ter monopolizado o mesmo para as aulas remotas.
Trabalhar na sala não é a mesma coisa e não sei como é que o pessoal consegue passar o dia a trabalhar no sofá com o pc no colo. Ficava torta das costas e visgarolha.
Esteve um sol magnífico o dia todo. O miúdo já caminha apoiado apenas por uma mão. Viva. Além disso, agarra-se ao andador e vai para todo o lado. Quando ele caminhar vamos ter de mudar a casa toda ou muda-a ele.
Almoçamos enquanto ele dormia e comemos de sobremesa os morangos que comprei ontem. Não dava 5 vinténs por eles e foram os melhores que já comi este ano. Vá-se lá entender.
Decidimos tirar as alianças dos dedos, não por divórcio mas para evitar potenciais alojamentos do bicho mau que anda por aí. Agora, de vez em quando, percebo que tenho o tique de rodar a aliança porque vou com as mãos ao dedo e está nu. Não gosto da sensação.
Fomos caminhar 15 minutos depois do lanche. Eu e o miúdo. Vimos um cavalo e a primavera, ambos indiferentes ao mundo de pernas para o ar.
De manhã estive a fazer uma colagem de fotos para dar à mamã. Estamos a rir em quase todas. Já quase esqueci da sensação de estarmos em público sem sentir que somos uma potencial ameaça. E ali estávamos, juntos em restaurantes e na praia, sem medo e sem dar valor algum a esse dado adquirido.
Voltaremos a ir despreocupadamente ou olharemos sempre pelo ombro, incapazes de um abraço?
Música do dia: Lullaby Love de Roo Panes.

 

Dia 5 | 24 isolamento | 3 de abril
5 dias deste diário que não interessa a ninguém.
De manhã fomos ter com a mamã: encontramo-nos a meio caminho, eu saí, abri a mala do carro dela, retirei as coisas que lá estavam, coloquei as coisas que levava para ela, entrei dentro do carro, fizemos inversão de marcha e voltamos.
Comigo a chorar o caminho todo.
Quando cheguei desinfetei as coisas sentindo vergonha de mim própria. E culpa. Desinfetar as coisas que a mamã me deu com amor?
Não consigo evitar uma dor profunda por isso.
Deixei-lhe uma montagem de fotos num quadro de cortiça com a mão do miudo pintada.
Em troca temos jarros na sala, carne fresca, laranjas e limões.
E chocolates.
O miúdo dormiu uma sesta anormalmente longa, das 12.30 às 16.00. Aproveitei para trabalhar. Agora anda elétrico a mexer em tudo. Parece que os legos crescem cá em casa.
Caminhei 15 minutos no caminho do costume. A meio lembrei-me de umas flores amarelas, silvestres que apanhava na infância. Chamávamo-las de pão com queijo. Gostava tanto delas que a mamã colocou umas quantas num vaso para mim há uns anos.
Quando isto acabar vou plantar várias no jardim.
Para desanuviar passei a ferro, finalmente, as toalhas e individuais que estavam no cesto desde dezembro.
Não ficou lá grande coisa. Paciência.

Música do dia: Deolinda de Jesus na versão de Isabel Silvestre .
Estou aqui.
Alguém aí?

 

[amanhã sai o diário de #6 a #10. Se tiverem muita curiosidade, já sabem onde está. até amanhã].

publicado às 10:25



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e agora dá aqui uma olhada