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Quarentena | O diário de #16 a #20

por M.J., em 07.05.20

[para quem quiser saber a explicação deste diário é só clicar aqui]

 

Dia 16 | 35 de isolamento | 15 de abril
A criança dormiu desde as 20.00 até às 9.45 da manhã. Um recorde de sono, é verdade, mas tivemos de o despromover de despertador.

Depois tomou o pequeno almoço de leite, pedinchou do meu pão, do pão do papá e não se calou enquanto não o tiramos da cadeira dele.
Percebi, minutos depois, que estava tão calado porque foi comer migalhas para debaixo da mesa. Oh Deus.
É por isso que aspiro todos os dias.

Choveu a cântaros a manhã toda. E uma parte da tarde também. Tratei do grande mistério da roupa, do almoço e brinquei com o miúdo. Estou uma dona de casa feita:
Mulher, esposa e mãe. Mais um cadinho e apelidam-me do lar enquanto passo a ferro com vestidos que me cobrem até ao pescoço. 
Mal posso esperar

De tarde consegui trabalhar. Assustei-me foi quando 20 minutos depois percebi que o miúdo estava em absoluto silêncio.
Fui ver: roía com toda a força um livro, da Disney com o titulo "Ser Amável".
DEUS NOSSO SENHOR, QUEREM VER QUE ATÉ O HUMORZINHO AZEDO PUXOU A MIM?

É que sinceramente.
Até aceito birras do não comer a sopa, o atraso no caminhar aos 16 meses ou o esmurrar sapatos novos em 30 dias. Mas não perdoo esta falta de respeito para com livros.
Já lhe disse: outra destas, faço-te a trouxa e vais recambiado para os avós.
Pobre livro.

De resto, não fomos caminhar porque estava a chover. Demos, ainda assim, uma volta de carro, sem sair, ao fim da tarde.

E daqui a nada vamos acender a lareira e esparrarmar-nos no sofá enquanto planeamos o que fazer no pátio, desde relva artificial, à mobília e à bacia de plástico que servirá de piscina à criança.
Quando não se tem cão...

Tudo fino desse lado?

 

Dia 17 | 36 de isolamento| 16 de abril
Noite muito, muito mal dormida: desde as duas da manhã até às cinco estive numa espécie de dormitar intermitente.
Horrivel.

Acordei, por isso, com uma enorme dor de cabeça.

As quintas são dias de compras. Há sempre pouca gente quando chego e muita gente quando saio. E carrinhos cheiinhos de compras que engrossam as filas. Acredito que em casa o pessoal duplique o que come e, como tal, duplica o que compra.
Faz sentido, pelo menos.

A dor de cabeça não passou durante compras ou, quando em casa, desinfetei iogurte a iorgurte, banana a banana e o próprio desinfetante. Qualquer dia temos que lavar com sabão o sabão que lavamos.
Oh Deus.

A malfadada dor também não passou durante nem depois de almoço. Resultado: não consegui fazer nada a não ser morrer um bocadinho no sofá.

Vi Friends, no conforto das coisas normais.
[Começa é a ser ridículo o número de vezes que vejo a série].
Há um mínimo.

Comprei um comando de brincar para o miúdo, esperançosa que largasse os a sério.
Claro que sim.
Assim que percebeu que aquilo não faz nada mandou-me brincar eu com ele.
Que bom.

Choveu de forma intermitente, mas a sério, o dia inteiro. Por isso, na hora do lanche fizemos o passeio higiénico de carro.
Em troca fui presenteada pelo mais bonito arco-íris que já vi. E como bónus não vinha colado a uma #hashtag.

Diz que "Não importa a distância que nos separa, se existe um céu que nos une." - Drummond de Andrade.
Na verdade, não sei se acredito muito nisso. Mas as minudências da vida tendem a transformar dias de cinza em 7 cores brilhantes no céu.

Tal qual aqueles instantes em que pai e filho fizeram da cozinha um parque de diversões/cavalitas com gargalhadas infindas à mistura.

 

Dia 18 | 37 de isolamento | 17 de abril
Fomos ao encontro da mamã, a meio caminho, na troca quinzenal de coisas necessárias.
O miúdo deu uns passinhos tímidos à frente dela.
Mas não houve colo nem abraços nem beijos nem outro contacto que não conversa distante.

Desta vez vieram centenas de ovos.
A avó mantém 4 galinhas cujos ovos vai vendendo. Agora fechada em casa os ovos acumulam-se e frustrada ameaçou po-los fora e acabar com as galinhas.
A mamã jurou-lhe que eu tinha uso para todos e trouxe-os. Mais de uma centena de ovos. Nem que nos alimentasse a omeletes os gastava todos. Assim distribuí-os às dúzias pela vizinhança que agradeceu muito pelos ovos das galinhas mais que felizes.
Quebrei foi o isolamento social.

Passei a manhã, portanto, de volta disso, da desinfeção das alfaces, laranjas e limões aos quilos. E morangos, tudo lá de casa.
Claro que os comemos de sobremesa. .
De tarde a criança brindou-me com mais umas caminhadas, agora sozinhinho e com mais confiança (ainda que eu vá atrás a garantir que não se atira. Às vezes dá-se-lhe um ar e atira-se de alto rindo muito quando o apanhamos 🤷‍♀️).

Pensei fazer um bolo para gastar ovos mas lembrei-me do descalabro de açúcar do início da semana e desisti.

Li um bocado (comecei a releitura de "E tudo o vento levou") e ao fim da tarde fomos caminhar no sítio do costume.
Infelizmente, hoje tinha gente e não fizemos o percurso todo.

Trabalhei foi nada que o rapaz açambarcou o escritório em reuniões à distância.
Mas está sol, é sexta feira e vamos jantar panados de frango do campo com ovos de galinhas contentes.
Não vivo na aldeia mas parece.

Está aí alguém?

 

Dia 19 |38 de isolamento | 18 de abril
Limpamos a manhã inteira. Sinto mesmo falta da empregada. O miúdo quer limpar também e anda atrás do aspirador que nem um tolo.
Adiante.

Esteve um sol magnífico mas não saí. Depreendo que hoje toda a gente tenha saído. Porque ontem os números foram animadores, porque estamos fartos, porque sol é sol.
Entendo quem sai e quem não sai. Mas como esta noite tive um pesadelo com o miúdo cheio de febre, a tremer e arroxeado (como quando teve o adenovirus) não quis sair.

Nem a caminhada de 25 minutos diária.
É bem verdade que o medo nos tolhe.

Começamos o tratamento do pátio, agora que o jardim ficou para segundo plano (dói).

Hoje lavamos o muro meeiro. Amanhã pintamo-lo.
Precisamos de relva falsa e plantas e prateleiras e milhentas coisas. Também quero comprar uns baloiços e escorregas para miudos pequeninos. E uma tenda. A ver se encontro à venda online.

Fiz um bolo de maçã e iogurte a meio da tarde, na saga de gastar os ovos. Não segui a receita que aquilo era açúcar e óleo a dar com um pau. Mesmo assim ficou muito bom.
A sério.

A orquídea está linda, linda. E encontrei nas limpezas uma caixinha de música que me ofereceram há anos em Espanha, numa viagem pelo meu aniversário. (É ver o video com som).
Este ano ia comemora-lo com um bom jantar no Naperon.restaurante em Odexeice e uns dias à beira mar. Assim parece-me que vou é festejar em casa, com uma garrafa de vinho para desinfetar por dentro.

É o que é.
Pelo menos já sei qual o bolo que poderei fazer.

 

Dia 20 | 39 de isolamento | 19 de abril
Esteve um dia bonito de primavera.

Lavamos o pátio de manhã. Ou melhor, o homem da casa lavou, a criança estorvou e eu andei no meio dos dois.
Depois colocamos a relva.
O projeto está agora a um terço.

Almoçamos o que era suposto jantar ontem.
Mas depois de um dia cansativo o homem cismou que queria Mcdonalds e mandamos vir.
Não sou apreciadora por aí além e foi chato pela sensação de "será que isto está infetado?"
Mas enfim, dias não são dias.

Depois de almoço ficamos no pátio.
O miúdo demorou a querer pôr as mãos na relva com um ar de absoluto nojo sempre que lhe tocava.
Temos diva, querem ver?

Trabalhei um niquito de tarde e adiantei refeições da semana, que já não posso com cozinhar duas vezes ao dia.
Ainda que a mamã me diga, com ar de espanto: mas para quê comer requentado se podes fazer fresquinho?
Pois

Há no ar uma espécie de sensação de o pior já passou.
Sentem-na?
E mesmo assim hoje não saímos nem temos previsão de o fazer, no meio de polícias a fechar as praias, restaurantes que não abrem e sítios públicos que são agora privados de pessoas. .
Está a passar.
Passará realmente?

 

publicado às 10:30



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e agora dá aqui uma olhada