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Quarentena | O diário de #26 a #34

por M.J., em 11.05.20

[para quem quiser saber a explicação deste diário é só clicar aqui]

 

Dia 26, 27 e 28 | 45, 46 e 47 de isolamento| Dia 27 de abril
Limpamos no sábado de manhã. À tarde ficamos por casa. Sinceramente já não me lembro a fazer o quê. Juro. Acho que fiz um bolo de maçã e tenho a vaga idéia de termos dado uma volta de carro.
É, foi isso.
E à noite vi after life. Está aí o ponto alto da quarenta.

No domingo fomos comprar pão de manhã.
Aproveitei e trouxe um folhado de salsicha. Dividimo-lo ao lanche.
Choveu, acho, durante o dia. Ou isso, ou esteve cinzento.
De tarde adormeci no chão da sala. A ideia era deitar-me lá para brincar com o miúdo. Quando dei conta ele estava deitado com a cabeça nas minhas pernas e eu estava cheia de dor de costas.
Excelente educadora.

Por uma questão de curiosidade tentei ver o Big Brother. Juro. Não consegui e desisti 30 minutos depois. Nem é por ser xunga, ridículo ou obrigar a uma inteligência de meio por cento. É que é chato. Cha-to. Ca seca.
Gente do céu.

Hoje consegui trabalhar de manhã. Na sala, claro está.

Choveu a cântaros a manhã inteira, esteve sol de tarde. O planeta pode estar muito satisfeito com o nosso confinamento. O clima é que não o demonstra. Está mais bipolar que eu.
Dass.

De tarde adormeci enquanto esperava que o miúdo acordasse. São coisas. Do escritório ouvia o rapaz a perguntar "não há mesmo dúvidas, pessoal?". É uma pena não haver teleescola para o ensino universitário. Podia ser que assim recuperasse o meu escritório.

No final da tarde fomos gastar gasóleo. Novamente. Andamos de carro pelas redondezas, vemos jardins alheios e pensamos como poderá ser o nosso.
É um bocado triste mas cada um com a sua.

Amanhã é terça. Podia ser sábado.
Ou feriado.
Ou o raio que parta.

 

Dia 29 | 48 de isolamento | 28 de abril
Choveu uma parte da tarde.
Não fiz praticamente nada.
Minto: lavei e estendi 2 máquinas de roupa, fiz gelatina, dei uma volta aqui pelas redondezas com o miúdo, aspirei a casa, tratei do almoço e agora do jantar.
E mesmo assim parece que não foi nada.

Tive mesmo de ir às compras de manhã, adiantando a compra semanal para a terça em vez da quinta.
Vi muita gente com máscara (sobre isso ver stories, não tenho capacidade de falar mais no assunto), e muita gente com luvas.
Vi pouca gente a desinfetar as mãos à saída, com o desinfetante fornecido pelo hipermercado.
E muita gente a mexer no cabelo.
Os cabeleireiros devem estar mesmo a fazer falta.
Santa estupidez.

De resto, o que marca o dia foi o susto tremendo (mais um) provocado pelo miúdo:
Quando acordou da sesta e pedinchou comida dei-lhe um gomo de maçã. Comia sentado na cadeira da papa, enquanto eu arrumava a louça, e em meio minuto engasgou-se.
Corri para a cadeira, bati-lhe nas costas e nada.
Estava aflito, cada vez mais, pelo que em segundos que me pareceram horas agarrei-o e entrei escritório dentro, interrompendo a aula do homem, que pegou no puto em frente aos alunos e o "desengasgou".

Pormenor: mal a criança conseguiu respirar pôs à boca o resto da maçã que ainda tinha na mão.
E só chorou nesta situação toda quando lha tirei.
Matem-me.

Depois ficamos sentados no sofá, os dois, comigo a engolir as lágrimas e tentar não pensar nos "e ses".
É tudo tão frágil!
Tão momentâneo!
Tão passageiro!
Tudo tão passível de desaparecer em minutos de tal forma que, reparem, estamos enclausurados, numa espécie de globo de neve, muito fechados a rodar sobre nós próprios enquanto a nossa pequenez continua em direção à inevitabilidade da nossa finitude.

 

Dia 30, 31, 32, 33 | 49, 50, 51 e 52 de isolamento | 02 de maio
Pondero se não é tempo de acabar com este diário.
Ajudou a passar estes dias mesmo que estes dias não tenham ainda passado.

Na quarta a mamã fez anos e fizemos um almoço cá em casa. Creio ter sido mais seguro juntamo-nos nesse dia do que agora, quando abrirem os portões.
Foi um misto de regresso a casa e reencontros.
E foi bom.
Houve presentes, jarros na jarra e muitos sorrisos.
Gargalhadas.
Planos.
Acabar com o medo.

Não me lembro do que fiz na quinta e na sexta. Sei que caminhamos num dos dias, que fiz panquecas noutro e que levamos o miúdo a passear.
Mas, ainda assim, foram dias cinzentos e nublados. Quer na rua, quer na minha mente.
Não consigo lidar com a paragem do trabalho.
Sinto-me inútil.
Bem sei que somos mais do que uma atividade profissional mas não consigo ser sem ela. Sinto-me incompleta, medíocre e sem equilíbrio.
Sou muito melhor mãe, esposa, mulher e pessoa quando estou completa como trabalhadora útil e capaz.

Pelo meio deixei queimar a comida do miúdo, não fui andar de bicicleta, parti um pirex e acumulei 4 máquinas de roupa para lavar.

Hoje veio o sol e tudo parece mais simples.
Limpamos a casa e saímos, de carro, para ir comprar morangos e uma orquídea como meu presente de dia da mãe.
O miúdo comeu morangos cujo sumo se espalhou pelas mãos e roupa.
E a minha orquídea está erguida em flor a lembrar-me que estive com a minha mãe esta semana e nenhum de nós está doente.

Talvez acabe este diário amanhã agora que as coisas começam a recomeçar.

 

Dia 34 | 53 de pandemia | 3 de maio
Há quem ofereça flores à mãe, brunchs, pequeno almoço na cama, jóias ou pingarelhos feitos nas creches e jardins infantis.
Eu, por outro lado, recebi do meu filho toda uma confirmação de que tem o mesmo feitio da caca que eu.
É um mini eu, sem tirar nem pôr, e fez questão de mo nostrar.
Muito agradável.

Tivemos choro ao antes do almoço, só porque sim.
Choro depois de almoço, só porque sim.
Choro antes do lanche.
Choro depois do lanche.
Antes do banho.
Depois do banho.
Antes do jantar.
Arre.

Tem dias (como o de hoje) que se revela em todo o seu esplendor, para me atirar à cara que é a minha cara:
Não suporta que o contrariem.
Tem nicles paciência.
Zero resistência à frustração.
Se for para comer está bem, mas podia comer sempre um bocadito mais.
Brincar é giro mas nada se compara a ver tv.
Tem um péssimo feitio quando tem sono. Ou fome.
Acha que caminhar é sobrevalorizado.
Está-se bem na rua mas se for para escolher prefere estar na sala, a brincar tranquilamente. Sobretudo se houver bonecada em plano de fundo.

Sou eu.
Why God, why?

Por isso, e porque apenas demos um passeio higiénico e não há expectativa da situação mudar nos próximos tempos, ainda estamos em isolamento e o diário continua.
Mas foi só isto, o meu dia.
E comprar pão para o pequeno-almoço, almoçar quase na hora do lanche, dormir no sofá depois de almoço e acabar de ler o livro #arainhabranca.
Finalmente.
Amanhã cá estamos para nova dose.

E vosso dia da mãe?
Foi só ternura, carinho, amor ou tiveram a mesma sensação delirante de "why God, why?" que eu?

publicado às 10:30


1 comentário

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De simplesmente... a 11.05.2020 às 10:40

Belas sínteses. Um pouco da vida de todos nós, nestas tristes circunstâncias. Bem escrito. Parabéns. Abraço.

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e agora dá aqui uma olhada