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remédios

por M.J., em 01.08.16

tem dias que perco a noção de quem sou. 

não sei se acontece com toda a gente. provavelmente não. provavelmente a maior parte das pessoas sabe exactamente de onde vem, para onde vai, quem é e o que quer ser. diz-se que ser pai/mãe ajuda muito a ter essa exacta percepção e acredito. nada como a realidade para matar fantasmas. 

eu, ao contrário da maioria, não faço a mais pequenina ideia de quem sou.

em dias mais negros perco completamente a noção e vagueio num limbo de imagens do passado a pontos de quase largar o eu de agora numa segunda dimensão de tempo e espaço. são dias longos, quase eternos, que se prolongam numa mistela de sentimentos depressivos e confusos, em que tudo parece visto à luz de uma névoa de inverno, mesmo ao pé de uma barragem.

são dias de abismo profundo em que não me consigo definir. olho para o espelho e não me reconheço. encharco-me de perguntas para as quais não tenho respostas, numa espécie de demência crónica e completa.

há pequenas coisas que ajudam. apesar de não resolverem e as perguntas continuarem ao género de corrente, qual compulsividade atroz, conseguem de alguma forma dar-me uma vesga de segurança e de noção do presente:

chá quente.

cevada acabada de fazer. b

olachas de limão com compota.

ouvir uma lista de músicas eternas.

friends em repetição de deixas e cenários.

os maias.

uma esplanada com pessoas.

são pequeninas coisas que repito, agora que sei, até me sentir novamente um pedaço de mim, mesmo que essa incógnita permaneça para sempre. há um ritual completo que desvanece trevas. deixar ferver a cevada inundando a casa do cheiro. queimar a língua no chá amargo. fazer as bolachas de raiz, mesmo que com gordura e açúcar. chorar com as músicas que evocam pessoas. fazer um resumo do episódio que ainda não começou. sublinhar a palavra que ainda não tem um risco nos maias. imaginar as dores de cada pessoa que, sentada, olha em frente.

um remédio. quase um encantamento de coisas térreas e certas. de sensações de bem estar e serenidade. de ausência de medos e irrealismos.

remedeiam dores.

mas não curam.

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publicado às 09:30


3 comentários

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De a dESarrumada a 01.08.2016 às 22:57

Todos temos esses pequenos remédios mas nem todos os conseguimos passar para o "papel"... tu consegues transmitir tudo em palavras! Tens um dom, obrigada por existires.
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De M.J. a 02.08.2016 às 11:11

caramba!
estou tão habituada a receber patadas ultimamente que nem sei bem como responder a um elogio...
obrigado.
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De belitaarainhadoscouratos a 09.08.2016 às 10:32

quando falas em cevada é daquela que tem que 'assentar'? faço desde miúda mas do que gostava mesmo era quando era o meu Pai que fazia... um verdadeiro ritual, cá pressas!

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