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ou a rubrica

era uma vez uma história triste #5

 

aqui diz zero, zero e ela está a dizer trinta,

roupa preta, criança num carro que grita em protesto, cabelo comprido e sotaque estranho. ao lado uma imensidão de espaço, numa espécie de quarentena imposta, gente espalhada nos cantos opostos,

senha trinta e dois, por favor,

a voz estridente da senhora atrás do balcão, lenço vermelho ao pescoço. um velho muito velho, tão velho que não tem mal que se chame velho, levanta-se de um dos bancos e aproxima-se lentamente, enquanto tira a boina. apoia-se na mármore do balcão em frente à senhora do lenço e maquilhagem borratada.

 

quando entrei o cenário já era este.

as pessoas acoplavam-se em pares, longe da mulher de roupa preta, criança em gritos, sotaque cerrado e cabelo preto imenso. sentei-me no banco ao lado, na espera da minha vez que se previa longa: dez pessoas à frente e os gritos de uma criança, num carrinho empurrado pela mulher de preto.

 

na chamada de uma nova pessoa após o velho muito velho,

senha trinta e três se faz favor,

a mulher, voz chateada, a frustração a aumentar,

aqui diz zero, zero, e ela está a dizer trinta,

aumenta o tom, a criança grita mais alto enquanto observo, canto do olho, que chatice, faltam nove pessoas à minha frente e ainda mais esta que deixou passar a vez por não entender que é 0033.

levanto-me, aproximo-me dela:

posso ver a sua senha? 

a voz num murmúrio.

responde-me com desconfiança, ainda que contente pela atenção, 

aqui diz zero, zero e ela está sempre a gritar trinta, foda-se,

o foda-se em muleta de conversa, atirado para ali numa afirmação de poderio, ar de desafio, pensamentos através dos olhos comigo não brincas tu, gorda de merda.

 

pego na senha: é o número vinte e três. a mulher deve estar ali há quinze minutos a lançar para o ar a ladaínha do "zero, zero". talvez tenha sido por isso que toda a gente se afastou.

aproximo-me do balcão, murmuro baixinho:

aquela senhora não consegue perceber o sistema de senhas e já passou a vez dela. pode atendê-la a seguir por favor?

a funcionária olha-me com desdém e finge que não entende. encolhe os ombros e solta uma opinião,

mais uma para o rendimento mínimo.

corrijo-a mais por formação, do que vontade:

rendimento social de inserção. rendimento mínimo não existe agora.

atrás de mim a criança guincha mais alto. a funcionária volta a encolher os ombros:

para ser de inserção, era preciso que se quisessem inserir. e essa gente só percebe a inserção do dinheiro. senha trinta e quatro, por favor.

 

alguém se aproxima do balcão. volto a sentar-me, perplexa e cobarde. a criança berra mais alto, a mulher olha o mundo sem entender,

aqui diz zero, zero, e ela está a dizer trinta.

faltam oito pessoas para eu ser atendida.

venho-me embora sem esperar. 

lá dizia zero, zero. 

 

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publicado às 14:00


15 comentários

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De Genny a 05.01.2017 às 14:21

Nem sei que dizer, após a leitura desta história triste. Fiquei num misto de emoções e contradições...
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De M.J. a 05.01.2017 às 14:31

foi exatamente isso que senti.
exatamente isso.
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De Gaffe a 05.01.2017 às 14:40

Mas a senhora de negro não se enganava.
É mesmo zero, zero, zero, zero, o números dela.
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De Gaffe a 06.01.2017 às 12:05

Entregamos outra senha?
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De Cecília a 05.01.2017 às 17:53

tudo desinserido pensando que os outros é que não se inserem.

se me permite, eu, no seu lugar, e antes de me vir embora, explicava a questão do 003x e dava a minha senha à senhora de preto.

beijinho para si.
esteve bem formada.
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De M.J. a 06.01.2017 às 10:37

era exatamente isso que eu devia ter feito.
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De Fátima Bento a 05.01.2017 às 21:28

... que triste, caramba... cada uma...
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De M.J. a 06.01.2017 às 10:37

que triste mesmo.
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De O Triângulo Perfeito a 05.01.2017 às 23:32

Adorei ler este post. Nem tenho palavras. Para além de escrever muito bem, conseguiu colocar o dedo na ferida. Bravo!
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De M.J. a 06.01.2017 às 10:39

oh obrigada.

no entanto, mesmo colocando o dedo na ferida, não fiz o que devia.
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De Ana a 06.01.2017 às 09:17

Fogo. Que treta. Esta M**** de sociedade. Enfim. Estiveste muito bem, sem dúvida. Não consigo ficar quieta nestas situações. E ainda era capaz de mandar a funcionária a um certo sítio, era.
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De M.J. a 06.01.2017 às 10:39

pois. mas eu não mandei, não expliquei o sistema à senhora nem lhe dei a minha vez. e por isso não estive assim tão bem.
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De Ana a 06.01.2017 às 11:37

Sim M.J. Compreendo o que queres dizer. Mas também sabes muito bem, que na altura pensamos e agimos de uma forma, e que depois pensamos sempre no que deveríamos ou não ter feito. Agora, o que eu acho, é que só o facto de não ficarmos indiferentes à situação, já é fazer alguma coisa.
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De Joana B. a 06.01.2017 às 15:21

sem palavras

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