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são coisas

por M.J., em 17.11.16

conheço alguém que perdeu o namorado, num dia escuro de inverno: num avc fulminante sem que nada o fizesse prever.

assim. um segundo respiras e tens a vida pela frente, revelando saúde a quem perguntar, juventude no corpo e na alma, e no segundo seguinte estás estendido no chão, o ar a recusar a entrar, o corpo a esfriar, o sangue parado: o nada.

não falando na tragédia em si e nos dias (anos) que esta minha conhecida vivenciou no após, gostaria apenas de partilhar convosco uma coisa que me contou, há uns tempos, quando casualmente nos encontrámos e a conversa rolou para o assunto (é melhor matar o elefante na sala de uma vez só):

pior do que aqueles que se afastaram na incapacidade de lidar com a minha dor, foram os carpidores da vida que me procuraram para ver na minha dor uma maior do que a deles. 

sem tirar nem pôr. 

é que no dia a seguir a minha colega recebeu dezenas de mensagens e pedidos no facebook de pessoas que não conhecia: numa pesquisa de faro de desgraças. na procura da dor alheia para amenizar a dor própria. no constante esmiuçar de pormenores. na tentativa de saber o mais macabro do assunto. no espalhar da desgracia ao vento. nas palavras que não dizem nada mas que fica bem dizer. 

segundo a minha amiga, o afastamento daqueles de quem esperava proximidade não doeu um terço em comparação com a proximidade daqueles que procuravam o detalhe sórdido da situação.

 

o ser humano é macabro. 

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oh vai ver ali:

publicado às 09:30


4 comentários

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De Mom Sandra a 17.11.2016 às 13:42


Há pessoas que nem para animais davam... Deviam renascer como cimento, ou ervas onde cai sempre o cocó dos animais, ou qualquer coisa assim do género.
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De Sarah a 17.11.2016 às 16:47

por alguma razão o correio da manhã é o mais lido do país....
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De Cristina a 17.11.2016 às 18:54

vampirismo.
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De Quarentona a 17.11.2016 às 22:32

Se por um lado concordo contigo, por outro lado consigo separar o trigo do joio.
Há uns anos fiz parte dos corpos sociais de uma Associação que dá (ou tenta) apoio a famílias (sobretudo mulheres que quer queiramos, quer não são sempre as que mais sofrem) que passaram por situações de perda gestacional. Tínhamos um fórum online e nem imaginas a quantidade de gente que aparecia à procura de histórias idênticas às delas, não por curiosidade macabra, mas para sentirem que não estavam sós numa dor que a sociedade não respeita e não compreende.

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