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sim, sou hipócrita

por M.J., em 15.06.16

tendo em conta a capacidade de evoluir do ser humano não há nada mais fácil do que andarmos aí, de dedo erguido, a coleccionar os hipócritas do mundo.

toda a gente é hipócrita, diz alguém, e acredito.

eu própria, por exemplo, que olho com ar de descrença meio mundo, avanço com voz grossa e punhos na mesa, olhos vidrados e cuspe ao canto dos lábios, que existe tanta hipocrisia que se fosse um alimento não haveria fome. que se fosse cocó não haveria sanitas no mundo disponíveis. que se fosse humor negro não haveria sinel de cordes que resistisse.

acho que dá para perceber. 

sobretudo em quem, ao longo do tempo, escreve ou produz conteúdos na net, sejam coisas com relativa qualidade, medianas ou uma valente bosta (sim, insiro-me nesta última, não vale a pena darem-se ao trabalho de me lembrar) é fácil encontrar uma série de contradições naquilo que se disse ou escreveu há meia dúzia de anos atrás e o que se escreve e se diz agora.

não vos conto a quantidade de vezes que esparramei coisas, e defendi com dedos e dentes e cabelo e unhas e mais houvesse, de que agora não me orgulho minimamente. a quantidade de patacoadas, embrulhadas em saquinhos de colorir, que derramei ao mundo, para o mundo ler ou desprezar (felizmente esta última opção acontece mais vezes, a meu próprio bem) e depois, anos mais tarde, percebi estarem erradas, serem uma valente merda, uma valente porcaria que nem com batatas fritas, leitão à bairrada, sushi, camarão e lays camponesas ficaria mais atractiva.

 

(é verdade, sabem tão bem como eu e vão estar aqui para comprovar isso quando andar aí, de dois em dois minutos a apontar como a minha barriga agora faz sentido porque alugada a um pedaço de carne com dois braços. ou um, depende.) 

 

vivi e cresci na serra, numa aldeia perdida no meio do nada. a minha avó falava baixinho dos comunistas não fosse a PIDE aparecer na esquina. ia à missa todos os domingos (ainda que tentasse sempre fugir a meio) e fui educada a acreditar em pilares básicos de uma sociedade esquecida, perdida, onde imperava o futebol, família e fátima. ou pátria, fé e família. onde meia metade da população masculina lutou na guerra colonial, matou pretos como quem mata galinhas e ainda se lembra dos saudosos tempos onde os macacos andavam em jaulas. cresci nesse meio e fui educada, ainda que da única forma que me poderiam educar porque educados também, que uma família tem um homem e uma mulher. que os homossexuais são maricas que pecam contra deus. que os filhos devem respeito ao pai e à mãe e que há coisas que não se imaginam, como um um puto crescer ao lado de dois homens. fui criada num sítio onde "cá em casa manda ela, nela mando eu" e em que a mulher não faz certos trabalhos que são de homem ou vice versa. 

é evidente que isso não justifica as minhas opções, opiniões e decisões actuais. mas poderá servir de percepção daquilo em que acreditava há uma dúzia de anos. aquilo em que acerrimamente, mesmo sabendo estar a ser uma pirralha idiota, punha a mão no fogo. "família é constituída por dois elementos de sexo diferente" ou "a homossexualidade é um desvio, uma doença" são só pequenos exemplos que já assumi, por mais do que uma vez, ter defendido, em tempos.  

não me orgulho mas não me envergonho a pontos de o tentar esconder simplesmente porque tive a capacidade de alterar isso. porque tive a capacidade de ver mais e melhor e perceber, sozinha e (oh, o cliché) acompanhada as frestas dos pilares onde assentava as minhas certezas.

não me orgulho mas não tenho medo de assumir que mudei. que alterei comportamentos e ideais e que aquilo em que acreditava há uns anos era uma trampa tão malcheirosa que nem com o mais puro perfume francês conseguiria disfarçar. 

 

portanto, assumo de mão no peito que possa ser hipócrita por defender o contrário do que defendia quando ainda não tinha brancas no cabelo nem rugas ao canto dos olhos. 

 

não sei é o que se apelidarão as pessoas que fazem agora o contrário do que defenderam há dois segundos.

que nome se dá a isso?

oh vai ver ali:

publicado às 10:40


4 comentários

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De sarabudja a 15.06.2016 às 11:04

Aquilo que assumes ser é inteligente, não hipócrita.
Conseguira eu e o mundo ser capaz de admitir, sem Mas pelo meio ou desculpas esfarrapadas, o quão errado se estava. Ou, simplesmente, que se mudou de ideias porque se viu mais mundo, se calçou outros sapatos, porque as cãs ameaçam a juventude, ...
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De M.J. a 15.06.2016 às 11:18

e o difícil, creio, nem é admitir.
é mesmo evoluir.
ou perceber que se evoluiu.
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De Anónimo a 15.06.2016 às 11:41

Se voltas a escrever "há dois segundos atrás", enfim... não te escrevo mais.
o gaijo tipo coiso

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e agora dá aqui uma olhada