Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



portantos, portantos… a modos que hoje, dia 2 de janeiro de 2020 era dia de ir pintar o cabelo.

digo era porque não foi, não vale a pena estar aqui com suspenses desnecessários.

 

então a coisa foi o seguinte:

na semana passada, perante as minhas melenas cheias de brancas, decidi que ia entrar em 2020 com elas devidamente aparadas e pintadas.

no entanto, consultando a minha agenda percebi que, pronto, em 2019 já não dava não dava e o único dia que se me afigurava com algum tempo livre era hoje, dia 2, às 9 da matina. 

de modos que, munida dessa informação e cheia de boa vontade, fui à cabeleireira aqui do sítio - antipática como uma porta,  deus a proteja, coitadinha, mas bastante boa no que faz - e vai de marcar para hoje, às nove.

perante o olhar meio azucrinado da senhora ainda avancei, timidamente, em jeito de desculpa "se estiver aberta, evidentemente".

grunhiu-me que sim. 

prontos, confirmei confiante na abertura.

 

enfim, hoje de manhã levantei-me e fiz-me à vida mesmo estando um frio que deus me livre, de fazer enregelar a alma e potenciais pelos e cabelos.

na verdade, as pessoas que encontrei na rua pareciam todas meio atarantadas, como que arrancadas de um paraíso idílico de excessos, álcool, açúcar, filmes melosos e horas infindas na cama e postas à força, sem qualquer preparação, numa manhã gelada, com um nevoeiro que se entranhava até aos sítios mais estranhos, obrigadas a picar o ponto e a voltar ao ram-ram dos dias chatos só porque sim. 

uma senhora, na pastelaria onde fui tomar um café antes de me dirigir ao cabeleireiro, confidenciava baixinho à menina na caixa, com quem parecia ter uma relação de longa data, que estava com cólicas. "foi das rabanadas, sabe? os meus intestinos já não estão para isto".

nem os dela, nem os de ninguém.

foi, meus senhores, uma semana de loucos. um mês, pronto, vamos ser sinceros.

foram dias e dias de um forrobodó sem fim: ele é gastar dinheiro em presentes, mesmo para gente que não gostamos muito mas que faz parte do tal amigo secreto; ele é enfardar bolos, chocolates, fritos, canelas, açúcares, cremes, pudins, bacalhau, batatas fritas, enchidos, camarão, peru e ainda aquelas outras coisas que não são grande espingarda mas que comemos porque sim; ele é dias de dormir no sofá, ver filmes no sofá, enroscar-nos no sofá, comer no sofá, prometer amor eterno ao sofá.

ele é, no mínimo, dias de festa, festinha, festarola. 

até por causa das coisas, só para verem que não minto, posso adiantar aqui que tentei trabalhar entre o natal e a passagem de ano. foi, que eu sou assim, parva. no entanto, por mais que quisesse, não havia ninguém, uma alminha que fosse, que me respondesse a e-mails, me atendesse telefones ou me desse andamento às coisas. se for a ver bem, recebi mais e-mails automáticos a avisar de férias do que resposta a prazos urgentes.

fan-tás-ti-co.

só que não.

porque agora anda tudo meio às aranhas, enregelado de frio, a contar a quantas anda e sem saber porque lado pegar o touro: se pelos cornos, se pelo rabo. 

e a minha prova disso foi hoje de manhã, quando a tremelicar de frio, a rogar pragas à peregrina ideia de ir cortar o cabelo, com as mãos geladinhas e imaginando as duas horas de conversa da treta, cheguei ao cabeleireiro.

e sabeis? 

estava fe-cha-do meus amigos.

e nem um papelucho.

e nem um avisozinho de, sei lá, "fechados por cólicas".

portanto, portantos, depois de bater com o trombil na porta vim para casa.

 

e concluí, muito sinceramente, que isto do ano começar a dia 2 não faz sentido nenhum. 

era a dia 6, isso é que era.

e neste interregno fazíamos, finalmente, a merecida pausa da pausa.

podíamos até, sei lá, reunir-nos em família, pensar no ano que passou e estabelecer planos para o que entrou.

só que sem álcool, sem açúcar, sem filmes melosos na TV e sem toda a gente a sentir-se na obrigação de não fazer nada porque é natal.

esta entrada a seco - ou a frio, vá - no novo ano, ainda sem tempo de descansar do descanso, mata qualquer um.

provoca cólicas, pronto.

e falta das cabeleireiras ao seu local de trabalho.

 

sim senhores. 

isto começa bem:

é a primeira vez que em vez de ser eu a faltar ao cabeleireiro, me falta o cabeleireiro a mim. 

 

[olhem, só por causa das coisas, o meu instagram está aberto. é só clicar aqui ou procurar por emedjay].

oh vai ver ali:

[1 - olá 2020]

por M.J., em 01.01.20

gosto do novo ano.

seja ele qual for.

gosto da falsa sensação de começo. da espécie de absolvição dos pecados anteriores e da possibilidade novinha de fazer melhor, eliminar erros e traçar objetivos.

a ideia do ano novo, um período puramente artificial construído por nós, em que nada muda a não ser a nossa expectativa, atrai-me.

gosto de pensar no ano anterior, do que fiz dele, do que não fiz, no que me tornei e no que me devia ter tornado, e de fazer planos para os próximos.

de abrir uma agenda novinha e traçar objetivos, metas, definir estratégias e propósitos com a expectativa - quase sempre furada - de que agora é que é.

não tem nada de mal e, na maioria das vezes, dá-me(nos) alento.

espartilhar a vida, partir o tempo, dividir em pedaços os nossos dias ajuda-nos a sentir que os controlamos.

que não estamos à deriva das horas.

gosto muito, por isso. 

 

não sou fã da festa, das passas, do álcool, do fogo de artificio, das cuecas azuis ou brancas.

mas confesso, com uma pontinha de vergonha, que vou ver o mar no 31/12, compro uma agenda todos os anos e digo a mim própria, a cada mudança de ano, que os próximos trezentos e muitos dias é que vão ser.

melhores.

maiores.

que se vão traduzir na evolução de mim própria.

 

(e na verdade... não é que têm sido mesmo?)

 

bom ano meus caros.

e muitíssimo obrigada por estarem desse lado, na leitura deste espaço, tão ao abandono em 2019.

 

em 2020 cá estou, a ferro e fogo, pontinha para pegar nele, abrir-lhe as janelas, limpar-lhe o chão, sacudir as mesas, comprar café novo, trocar as cortinas, lavar os vidros e e entregar ao mundo as minhas inquietações, quase sempre sem resposta:

e agora?

sei lá!

oh vai ver ali:


foto do autor



e agora dá aqui uma olhada


deu discussão! (quase porrada)