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se me acham bruta agora, pouco diplomática, com um humor duvidoso e piaduchas idiotas, haviam de me ter lido há uns anos.

a minha acidez - e estupidez - chegava a dissolver carcaças.

 

deixo-vos um pedacito de uma carta escrita num dia particularmente nebuloso.

 

podem ler mas não me batam.

lembrem-se que estamos sempre em constante evolução.

(e na verdade, não há assim muito coisa por ali que não seja verdade, 'tão não?)

 

agora, sobretudo, sobretudo - e isto é essencial - pergunta primeiro à pessoa que está ao teu lado se ela quer efectivamente pôr a mão na tua barriga. é que repara, torna-se desagradável para os outros alguéns do mundo estarem constantemente em sobressalto sobre se será agora que vão ter de sentir uma coisa anormalmente estranha dentro da barriga de outra pessoa e terem de dizer: que giiiiro!

não-é-giro!

não é!

é estranho e causa, numa primeira sensação, um sentimento de repulsa.

 

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da carta

por M.J., em 02.02.15

cara senhora que vai ser mamã:

 

acredito que estejas orgulhosa.

não que eu ache que devas estar assim, muito por aí além. bem vistas as coisas, a maioria das pessoas consegue fazer um filho (seja inteligente, bonita, feia, rica ou pobre). é uma coisa natural. a não ser claro, que tinhas tentado muito e não tenhas conseguido.

por isso, envergares a barriga pelo meio da praça com ar de "foda-se, sou a maior, tenho uma pessoa dentro de mim" não é um grande feito. quer dizer, se tiveres oito pessoas dentro da barriga consigo entender (quanto mais não seja conseguires caminhar). agora ter uma ou duas... bem, pronto.

 

do mesmo modo, acredito que queiras mostrar e dizer ao mundo as maravilhas da maternidade. mas acredita que nem toda a gente - enquanto come uma sandochas, ou pensa no drama do cabelo cujo volume duplicou esta manhã - está com vontade de saber que

i) enjoaste quando acordaste,

ii) os teus pés incharam e

iii) peidas-te sem conseguir controlar.

por mais radiante que estejas! e sim, estás. isso não é gordura, é outra pessoa. isso não são mamas de silicone. é leite em formação. estás um espanto, fabulosa, irradias essa coisa que os poetas cantam de brilho de grávida mas, por favor, não estejas constantemente a falar disso, sobretudo a quem por exemplo, não pode ser mãe. há tantos temas.... a grécia por exemplo. ou o benfica. ou o pudim que comeste todo ontem à noite num desejo mal contido.

é que são nove meses. nove! é muito dia a discorrer do mesmo assunto. 

 

agora, sobretudo, sobretudo - e isto é essencial - pergunta primeiro à pessoa que está ao teu lado se ela quer efectivamente pôr a mão na tua barriga. é que repara, torna-se desagradável para os outros alguéns do mundo estarem constantemente em sobressalto sobre se será agora que vão ter de sentir uma coisa anormalmente estranha dentro da barriga de outra pessoa e terem de dizer: que giiiiro!

não-é-giro!

não é!

é estranho e causa, numa primeira sensação, um sentimento de repulsa.

 

desculpa estar a dizer isto.

eu sei que devia estar aos saltinhos contigo. sentir do teu orgulho por contribuíres para a natalidade (ainda que o planeta não ache muita graça). fazer o meu ar mais fofo porque um novo ser vem a caminho. irradiar felicidade porque o milagre da vida se desenrola aos meus olhos. mas não estou. estou só em pânico que pegues na minha mão (esquerda ou direita) e a coloques na tua barriga descomunal enquanto me dizes, com um piscar de olhos "vai ser o próximo cristiano ronaldo".

não faças isso está bem?

e eu prometo que digo, quando ele nascer, que mesmo vermelho e enrugado é a criatura mais bela que a humanidade já teve a honra de ver!

 

ah, ah e não digas a ninguém que não queres epidural visto que a tua mãe também te teve sem a levar e não morreu. acredita. quando chegar a hora, se puderes, não levas só uma! 

 

ps. e quando eu estiver grávida - algum dia vai ter de ser, coitada da criança, tenho mais pena dela que de mim - lembra-me disto tudo, está bem?

agradecida!

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deu discussão! (quase porrada)