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casa

por M.J., em 27.01.20

almoçamos em casa dos papás no domingo.

o miúdo vai percebendo, a cada dia, truques e manhas.

agora, sempre que algum de nós o contraria, seja por que motivo for, ergue o beiço e olha para o outro, na procura de socorro ou consolo.

perante tal ato dramático temos de virar a cara para não rir em frente  dele.

é claro que ontem usou essa técnica com a mamã:

quando o contrariei por algo que já nem lembro, armou o beiço e vai de gritar em prantos, um ar sofrido e magoado, os dentes todos à mostra, o olhar fixo nos avós até irem os dois, a correr muito, salvá-lo das minhas garras.

sim senhores, lindo serviço.

 

na serra, a esta altura há um silêncio que não se explica a quem nunca o ouviu.

deixei o miúdo ser apaparicado pela mamã e fui dar uma volta, dando conta do som do vento nas árvores, os latidos dos cães, ou o caraquejar de alguma galinha.

o gelo foi queimando ervas e plantas e dotando tudo de um acastanhado dourado.

a relva tem agora laivos avermelhados, as plantas no quintal estão secas e despidas e as árvores erguem-se sem folhas.

o limoeiro sucumbiu ao peso dos limões e da laranjeira caem laranjas numa abundância comum, ficando mortas no chão, um cheiro a azedo a pairar no ar. 

 

às vezes sinto falta da pacatez da serra, das horas que não correm ou do espaço aberto, amplo, para se respirar. 

desde que me mudei de coimbra que a sensação se atenuou.

viver numa casa, com espaço dentro e fora, poder respirar fora das quatro paredes sem ser na rua pública, sentar-me nas cadeiras do pátio, levar o miúdo a sentir a erva do jardim (ainda não é relva, talvez este ano) atenuou a saudade que sinto desde que saí da aldeia e que nunca confesso. 

mas ainda assim, há algo em mim que me puxa a casa saindo de casa. 

e o deslumbramento da beleza que não vi durante vinte anos ataca-me sempre, nestes almoços ou visitas domingueiras.

a nostalgia das lembranças de uma infância que julguei ter sido dolorosa queima-me no peito e quase esqueço do gelo nas mãos e nos pés à ida para o autocarro que nos levava à escola, do frio que corta mesmo dentro de casa, do isolamento que nos colocava a milhas de distância daquilo que eu julgava serem as oportunidades da felicidade.

 

 
 
 
 
 
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Há poucas coisas que me recordem mais quem sou, de onde venho e o que trago comigo do que voltar a casa. Não à casa onde vivo e que é minha, mas à dos papás onde vivi infância e juventude. A serra está vestida de beleza. É muito dificil explicar o som da água no rio, o cheiro das folhas secas, o dourado que o gelo dá ao tom de verde que já começa a despontar. A beleza da serra é crua e nem sempre visível, sobretudo a quem lá nasceu e desde sempre vive e viveu. É fácil que deixe de ser visível, escondida pelo frio cortante que a maior parte das casas não pode combater; ou pelo sol árido a queimar o corpo em dias infinitos de verão. É fácil que deixemos de ver beleza no isolamento, nos dias sempre iguais, na vida difícil e dura que nos coloca a muitos quilómetros de distância das oportunidades. E mesmo assim, reparem, há poucas coisas mais bonitas do que esta foto tirada há pouco quando voltava a casa vinda de casa. . . . . . #inverno #invernoeuropeu #inverno2020 #folhas #folhassecas #arvores #árvores #trees #winterdays #lar #entrefolhas #meular #paisagemlinda #instawinter #amofotografar #winterwear #folhaseca #casadecampo #treestagram #winterseason #folhascaindo #paisagem #paisagemnatural #folhasaovento #casa #wintermood #folhasdeoutono #blog #blogger #eagoraseila

Uma publicação compartilhada por Maria João (@emedjay) em

volto a casa vinda de casa.

há vinte anos de memórias e de construções de quem sou a lembrarem-me que tenho vinte anos para criar memórias e construir - também - quem trouxe a esta casa:

para que ele um dia voltando à sua casa indo desta casa, recorde a beleza da infância e os momentos em que corriam para ele quando erguia os lábios num beicinho contrariado. 

oh vai ver ali:

páscoa serrana

por M.J., em 31.03.17

a serra tem um silêncio que não encontrei, jamais, em qualquer outro lugar.

ouvimos, com clareza transparente de riachos puros, o som dos pássaros, dos cães ao longe, de uma mosca melancólica no vidro.

 

na páscoa o silêncio aumentava numa dimensão de milagres santos.

os dias eram mais claros e azuis na primavera que chegava. as trepadeiras da varanda, em mil gomos lilases lançavam um cheiro adocicado e disputar com as amêndoas doces espalhadas em pratos. limpava-se a casa, numa azáfama constante. a sala passava a cheirar a óleo de cedro e ananás, com uma grossa toalha de renda.

 

na quarta feira santa as confissões na igreja estendiam-se o dia todo.

eu arranjava mil pecados que não cometera para ir com a minha vizinha. demorávamo-nos no caminho, passando pelo carreiro cheio de ervas daninhas. 

fazíamos ramos de flores amarelas, silvestres, que escondíamos à entrada da igreja e que estava invariavelmente fria, com cheiro a lixívia e humidade. pálidos raios de sol entravam pelos vitrais fazendo brilhar partículas de pó. sentava-me num dos bancos cimeiros e ficava contando os pontinhos de luz que dançavam na minha frente.

 

na quinta feira o avô punha luzes na fachada da casa.

preparava-se o caminho da procissão da noite, com velas compradas na loja do lado da igreja, que enrolávamos em papel velho.

o padre fazia uma missa longa que eu não ouvia. sentava-me no muro do grande largo da igreja e ficava - calçando ou vestindo alguma coisa nova - olhando as pessoas, na procura de uma cara da escola.

às vezes comprávamos rebuçados e ansiávamos pela procissão para acender as velas.

 

na sexta feira era proibido comer carne.

a mamã escondia qualquer pedaço dela, para não nos esquecermos ou cair em tentação. o pecado mortal de comer carne jamais seria perdoado. 

comíamos arroz de polvo, invariavelmente ao almoço, numa festa de rancho melhorado. não conseguia perceber o contexto de penitência.

nem os papás.

o papá, do alto da sua voz grave, dizia que era um pecado hediondo comer carne, deus me livre, enquanto a mamã cozia o polvo. bem mais caro que a carne. um dia avancei que penitência era não comer uma coisa que gostássemos pelo que eu abdicaria dos chocolates.

foi-me dito para não dizer asneiras pelo que, para compensar, às três da tarde - quando no café do tio se exigiu um minuto de silêncio pela morte de jesus cristo - enfardei dois chocolates twix que a minha prima me deu.

 

à tarde outra procissão do funeral de cristo.

a multidão amontoava-se à porta de uma velha capela e pelo chão espalhava-se erva doce e flores silvestres. caminhávamos em silêncio, muito sérios e compenetrados.

a banda tocava afinada, na certeza de não fazer feio.

e no meio as mulheres criticavam roupas e cabelos, aquela que engravidara ou o outro que andava com a vizinha.

 

no sábado, antes de jantar, na igreja faziam-se cerimónias que se arrastavam noite dentro.

eu ouvia-as, de casa, os cânticos longos e desafinados e num dia de tédio decidi ir. acenderam uma fogueira à entrada e dentro cantaram desalmadamente durante horas. a meio fartei-me, enregelada e fui para casa maldizendo a triste ideia que se me dera. durou até às onze da noite, altura em que o sino tocou a anunciar a ressurreição.

 

no domingo o padre passava, com uma cruz, por todas as casas: era o compasso.

o papá insistia em pôr pétalas de camélia no terraço, contra a vontade da mamã. havia amêndoas em pratos brancos e uma toalha muito brilhante em cima da mesa. encostado a uma jarra de cravos, que a mamã ordinariamente comprava, colocavam um envelope selado com o dinheiro do folar a entregar ao senhor padre. nós ouvia-mo-lo à distância de uma campainha que um miúdo tocava. 

ficávamos quietos, cada um no seu sítio, quando o padre entrava.

uma vez, muito pequena, recusei-me a beijar a cruz porque me haviam dito que todos os velhos a beijavam - mesmo os sem dentes - e que o pano com que a limpavam era sempre o mesmo. quando o compasso saiu a mamã pôs-me de castigo.

mais tarde a avó disse-me que não haviam doenças nos pés de deus.

aquilo convenceu-me:

ainda hoje beijo.

ainda hoje não como carne à sexta feira.

ainda hoje sei de todos os pormenores, que me doíam à época, e que recordo com melancolia gritante de quem não volta a tempos em que o silêncio quebrava a dor e se transformava em coisas maiores.

 

continua tudo lá.

só eu não.

os mesmos rituais e procissões, compasso e envelope em frente ao jarro de cravos, a que assisto, muito ao de longe, sem assistir, na promessa feita.

há promessas que deveríamos estar autorizados, por nós mesmos, a quebrar.

do domingo

por M.J., em 15.03.15

ao domingo o bairro enche-se de um silêncio pachorrento, que entra pelas casas, pelas pessoas, pelas árvores.

há vozes que saem melancolicamente das janelas semi abertas. no fundo do jardim um idoso passeia o cão e o rapazito com ar de demente fuma languidamente num dos bancos, olhando desconsolado o cão do velho. não sei que será feito dos dois cãezitos com que se faz acompanhar todos os dias. possivelmente, por ser domingo, também eles quiseram a sua folga.

ou morreram.

é possível.

 

a pastelaria tem menos gente do que o costume, não passam carros na estrada.

a aproveitar o sol de inverno, quente, sem vento hoje, há crianças e avós, sentados na esplanada. um catraio olha para um livro de banda desenhada, de pernas para o ar, enquanto tagarela sozinho. pedimos dois cafés. o céu está mais azul, a empregada serviu-nos com calma, desejou-nos bom resto de domingo.

 

quando regressamos a casa um miado de gaivota encheu o bairro todo.

fiquei uns vinte minutos na janela da marquise, a olhar a árvore das flores rosa enquanto esperava pelo chá. não vejo pessoas nos apartamentos da frente e, em baixo, não se ouve cão nem criança em guinchos. tive vontade de fumar um cigarro, muito tranquilamente, fazendo círculos com o fumo.

depois lembrei-me que não fumo e apressei o chá.

 

quando cheguei à sala o rapaz tinha as cortinas cerradas enquanto jogava um jogo parvo na ps4. abri as cortinas, a portada, fui à varanda ver as flores. ele seguiu-me com ar culpado, perguntou se queria ver um filme ou sair. acenei que não. gosto dos domingos em casa, a ver o silêncio do bairro. gosto que ele faça uma coisa que lhe faz sentir bem e tranquilo.

podemos estar juntos fazendo coisas diferentes. não quero exclusividade de atenção. não a consigo retribuir.

 

na rua de trás uma senhora toca violino dentro do carro, que ouço enquanto coloco o saquinho de chá na chávena. reguei a orquídea, que ainda não perdeu as flores e pensei seriamente em ir correr. não vou fazer bolachas ou olhar filmes na tv.

 

hoje vou escrever.

a senhora em baixo corta agora o silêncio com o adagio for strings no seu violino, dentro do carro.

não troco o chá por um copo de vinho.

mas era menina para lhe dar uma das orquídeas, quando ela acabar.

 

publicado às 17:00

boa noite

por M.J., em 07.03.15

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oh vai ver ali:


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e agora dá aqui uma olhada


deu discussão! (quase porrada)