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um casal de conhecidos contou-me o seguinte, há uns tempos, quando conversávamos acerca de coisas banais da vida:

um dia foram a uma loja de brinquedos com o objectivo de comprar uma qualquer parafernália de presente para a sua cria. já na caixa, depois da escolha feita, o avô da criança quis fazer uma surpresa e custear a coisa escolhida. pois o que é que acontece?

  • a mãe agradece muito e arruma o dinheiro?
  • a mãe recusa e pede ao avô que compre algo noutro dia?
  • fica contente por o avô querer dar um presente?

não.

tendo destinado já que aquele dinheiro era em prol da sua cria, voltou aos corredores coloridos numa azáfama sem par e veio de lá com outro brinquedo.

é que não fazia sentido, concluiu ela, usar aquele dinheiro para outra coisa que não o bem estar de quem pôs no mundo. e assim, todos alegres, foram para casa com o dobro das coisas compradas e o dobro do dinheiro gasto.

 

evidente que sorri e acenei. 

aprendi, nos últimos tempos - com os trinta no lombo e o mundo ao meu redor a procriar - a sorrir e a acenar a tudo o que esteja relacionado com as decisões filiais de cada um. não tenho legitimidade para opinar ou fazer má cara e, na verdade, nem sequer me apetece perder grande tempo a pensar na coisa. sorri e acenei, portanto.

até ontem.

convém esclarecer que na minha serenidade e crescimento pessoal de aceitação das parvoeiras do mundo - incluindo as minhas - não atingi ainda um estado mental de equilíbrio pelo que, às vezes, expludo em merdices sem lógica acabando por mandar o gandhi à merda e decidir que a meditação é boa para quem quiser lavar louça ao pé cochinho gastando o mínimo de água possível.

aconteceu ontem. 

 

explico:

fui convidada a ir a uma (mais do que uma) loja de coisas para bebés, mamãs e crianças que já não são bebés mas cuja idade continua a ser contada em meses (tem sessenta e dois meses e quatro dias). confesso que fui de pé atrás. uma pessoa cresce e muda e assim mas não se reconstrói qual fénix renascida em unicórnios e arco-íris na testa. assim, passar quarenta e cinco minutos da vida a acenar para carrinhos, biberons, roupinhas, chupetas e brinquedos é ainda coisa para me fazer mandar o crescimento às urtigas e praguejar muito mentalmente.

vá lá.

de certeza que há qualquer coisa com que vossas excelências embirram. tem de haver. eu embirro com carrinhos de mil euros, roupas para usar uma vez e brinquedos que são postos de lado ao primeiro olhar. mais. embirro com pais que, na sensação de se sentirem os melhores, os mais capazes, os que dão o que não tiveram, enchem a casa com tralha infinda para as crias, transformando salas, quartos, corredores e escritórios numa creche e dizendo que é para o bem dos filhos quando, em boa verdade, tenho grandes dúvidas que um puto precise mesmo de ter quarenta e dois brinquedos e ainda mais dois porque o dinheiro que a mãe guardou para o último tem de ser necessariamente usado nisso, mesmo que o avô lhe ofereça. 

pronto, desabafei. 

e foi por isso, meus senhores, que aguentei vinte minutos. vinte minutos porque gosto demais da grávida e do namorado. vinte minutos porque enfim, vinte minutos era o único tempo que eu estaria disposta a aceitar que alguém se sacrificasse por mim numa coisa que embirrasse. mas quando começaram a falar carrinhos de bebés, alcofas e berços como a coisa MAIS importante da terra, com a mesma importância que se dá a à compra de uma casa, pois que se me deu uma dor de estômago e fugi na desculpa da casa de banho.

 

não posso.

não consigo. não estou preparada para ser, de repente, só fraldas e ovos e discutir com toda a serenidade o preço de uma porcaria que não serve para nada como se fosse a descoberta de uma galáxia distante, cheia de vida que não ets feios. não me imagino, na minha sovinice, a abrir os cordões à bolsa e transformar dinheiro num conjunto alarvemente caro porque a segurança está acima de tudo, mesmo que o tudo seja um roubo descarado. não posso, não dá. e este não poder, este não conseguir, este enjoo constante perante sutiãs de amamentação; paredes repletas de fotografias de crianças em exposição e mamãs que pareciam ter atingido o nirvana; berços que podiam, muito bem, albergar uma barra de ouro tal o preço; toda esta minha incapacidade de ficar com os olhos redondos e fazer gesto cutchi e dizer "oh que fofo", "olha que giro", quando não me parece nada fofo nem giro, só idiota, pois tudo isto me dá a sensação de anormal.

sou anormal, pronto, está visto.

sou a anormal que não consegue ser igual aos outros. que tem um bloqueio. falta-me qualquer coisa, começo a concluir. tenho uma doença que me impede de ver a fofura. e é estúpido porque creio, daria uma boa mãe. seria altamente responsável. preocupada. daria atenção às coisas que acho certas: valores. detalhe. compreensão. presença. segurança. aboliria o medo da vida de uma criança. dar-lhe-ia toda a rotina e faria de tudo para que os dias fossem um cruzeiro de serenidade, com brisas suaves e cheiros de maresia, limão e bolos de maça canela. juro que sim. mas parece que nada disso vale. nada disso serve porque em todo o lado o que vejo e leio e percebo e sinto é que precisas de uma formatação qualquer. precisas de ser cutchi. precisas de dizer as mesmas coisas e ter as mesmas preocupações. precisas de aclamar ao mundo que darias a tua vida e que nunca amaste assim. precisas de só falar disso. precisas de só escrever sobre isso. precisas de só ser isso. precisas de ir a lojas de bebés e estar disposto a gastar o que tens e o que não tens porque, em caso contrário, não serves. precisas de comprar duas coisas em vez de uma porque, se destinaste aquele dinheiro para aquilo, não podes gastar noutra coisa sem te sentir culpado.

e é triste. 

caramba, que estou triste.

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mudança

por M.J., em 12.09.17

há uns tempos recebi um comentário de alguém muito escandalizado sobre um post meu escrito há dois anos.

a minha resposta rápida foi instintiva: sarcasmo, uma piada amarela e fim da questão.

depois, fui ler e percebi, de uma forma muito clara, o que tinha ofendido a anónima que escrevia não ter comentários para o comentário que fazia:

era um post azedo, amargo até, em que eu falava sobre a estupidez do pedido de três horas diárias, não sei durante quantos anos, para amamentação.

 

li com o nariz franzido. 

não que a minha opinião tenha mudado (o que podia ter acontecido). a minha opinião mudou acerca de muitas coisas e creio que vai mudar muito mais ainda. mas neste caso em concreto não. continuo a achar - apesar da discussão já não estar em cima da mesa - que durante dois ou três anos uma mulher ter uma jornada de trabalho com menos três horas do que os seus pares - homens e mulheres - para amamentação é ridículo. e que os argumentos usados (que a amamentação não é só alimentação mas laços, investimento no futuro da criança e dar tempo à mulher para ser mãe) são muito lindos mas não são compatíveis com aquilo que uma plataforma inteira de feministas anda a clamar: igualdade de género.

 

ainda assim, não é sobre os argumentos em si de que quero falar; ou sobre a discussão em causa; ou sobre o que penso do assunto. é antes o meu franzir de nariz quando li o que escrevi: não o faria agora (o escrever, não o franzir a penca).

não só porque as palavras não se alinham hoje nos meus dedos como pedras bicudas - o que acontecia na altura - como porque não sinto a necessidade de provocar (pelo menos não na maioria dos dias). de passar uma mensagem com espetos e palavras agudas, repletas de indirectas e directas feias. 

 

não sei se é crescimento, mudança, serenidade, maturidade ou somente uma fase diferente. mas não me revi, aos dias de hoje, na pessoa que escreveu aquilo (e nem fui ler todo o resto).

parecia-me ter sido lançado ao vento por alguém muito zangado, aborrecido e cheio de espinhos.

e se hoje continuo com alguns espetos, com um feitio deus-ma-livre, com um furacão de azedume nos dedos em certos dias, na maior parte deles estou bastante acima. 

na maior parte deles olho as palavras e as horas e as pessoas e quem sou e respiro de alívio.

não há já a vontade de não acordar de manhã, em rezas e mezinhas antes de adormecer. não há o medo. não há a mochila preta debaixo da cama pronta para a fuga. e talvez seja isso - sei lá, cada vez sei menos - que me transforma as palavras e retira as pedras azedas dos dedos.

mesmo que não as mate de vez.

 

a reter cara MJ:

este blog continua a ser o expurgar de fantasmas do que te turva a alma.

mas é, cada vez mais, um cadernito de apontar as banalidades da tua vida. 

para lembrança futura. 

para não esqueceres quem foste.

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deu discussão! (quase porrada)