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convocatória

por M.J., em 05.05.16

nos termos da minha vontade enquanto autora deste blogue, dona legítima da personagem M.J., moça casadoira num futuro próximo, com a comparência da seita em peso no dito, porque os blogues são só blogues mas contêm nelas pessoas que são amigas, convoco os senhores seguidores/leitores/fãs/pessoas-que-não-sabem-bem-o-motivo-de-lerem-isto para exercerem o seu direito de VOTO, na questão seguinte, aberta a escrutínio até dia doze do corrente mês do ano da graça de dois mil e dezasseis:

 

ah isto dos blogs!

por M.J., em 29.04.16

escrever num blog, por detrás de uma máscara, personagem ou o que se quiser chamar, e achar que isso é sinónimo de anonimato absoluto, dando-nos o poder de dizer tudo sobre tudo, da forma que quisermos, quando e sobre quem quisermos é uma ideia tão ingénua como os "anónimos" que, por comentarem anónimo, se esquecem que são facilmente identificados porque escrevem sempre o mesmo, da mesma forma e com o mesmo discurso.

é ingénuo.

falo por mim. a ideia inicial de que eu não sou eu mas uma personagem é muito bonita mas não é totalmente real. a M.J. não é quem a escreve mas tem traços dela facilmente reconhecidos por uma das cinco ou seis pessoas que com ela convivem diariamente. a pessoa que escreve a M.J. não é a M.J. mas imprime-lhe traços da sua vida, do que faz e do que pensa.

é inevitável. criar uma personagem totalmente diferente do que somos exige maturidade, trabalho e uma capacidade inventiva que eu não tenho. arrisco-me mesmo a dizer que nenhum de nós, que aqui escreve todos os dias, tem. somos todos também quem escrevemos e sendo isso não podemos, jamais, achar que estamos completamente à parte do que escrevemos.

durante muito tempo, sobretudo em outros blogs, esqueci-me disso e usei-os como escapes ao que sentia, do que sentia. e não estava minimamente preparada para que aqueles que conviviam comigo se vissem escarrapachados na net, com mais ou menos exageros.

que nem sempre o que escrevemos pode ser a realidade. podemos aprimorar um ponto ali, uma característica acolá. pegar no que vemos e fantasiar. sem medos porque somos anónimos e não fazemos mal a ninguém. até ao momento em que quem se viu retratado o lê e fica ofendido. como quando alguém se vê numa caricatura e se odeia, por ser muito mais do que os traços dominantes. 

é fácil caricaturarmos os outros, e a nós próprios, achando que não faz mal porque os outros e quem somos são mais do aqueles traços, esquecendo-nos que quem lê só assume esses mesmos traços.

uma consumição. 

achar que pelo facto de termos um boneco em vez de fotografia somos portadores do poder de relatar de tudo o que vivemos é uma falácia, a não ser que estejamos amplamente preparados para que isso seja lido mesmo com quem vivemos.

escrevermos a coberto de uma máscara que sentimos qualquer coisa por outra pessoa que não o nosso namorado, sem lhe dizer primeiro, é o quê? 

escrever o quanto odiamos a mãe da pessoa com quem partilhamos a vida sem lhe expressarmos isso antes é o quê? e mesmo expressando? 

escrever que a amiga é ridícula nos medos que nos confessou é o quê? mesmo a amiga não tendo nome?

descrever detalhadamente os defeitos da nossa avó pode ser o quê? mesmo em forma de desabafo?

escrever o quanto se odeia o marido enquanto se dorme com ele na mesma cama é o quê? 

se fossem vós o namorado, o filho da sogra, a amiga que confiou, o marido e por um acaso se reconhecessem caricaturados em textos na net sentir-se-iam como?

ah pois. aprendi isso à minha custa e apesar de nem sempre o respeitar juro que mudei amplamente sobre o que escrevo. 

escrever num blog não é o mesmo que escrever num diário onde não é suposto ninguém ler.

escrever num blog é pegar nas palavras e dá-las ao mundo. qualquer pessoa pode ler, identificar, avaliar, julgar. passei anos até o perceber. e se o que escrevo continua, na maioria das vezes, a ser genuíno é também mais ponderado acerca de quem me rodeia e por quem tenho sentimentos. 

se vejo mal em quem o faz?

não sei.

se os visados de que falam se lessem nas vossas palavras sentir-se-iam bem convosco?

todos os dias há gotas de chuva a bailar pela vida. acordamos e somos chuva. buscamos nas comezinhas coisas dos dias o aconchego à chuva que nos cai pela alma, em grossas bátegas, vendavais que fazem tamborilar os telhados que nos aconchegam os sonhos. usamos o mesmo perfume para esconder o cheiro da desolação das cheias no espírito, mesmo em dias radiosos de sol e luz.

há sempre chuva a bailar na vida.

na tua.

sei da chuva que te cai pelas costas ainda que só lhe vejam luz e cor e sorrisos discretos de quem sabe sorrir mesmo quando há vento e granizo, trovões e temporais negros na alma.

sei de ti e sinto-me abençoada por sentir a mesma chuva, quase a mesma, que sentes no correr dos dias.

hoje não chove! 

hoje há só sol e todas as gotas de chuva do mundo se transformaram em sardinheiras ruivas, vivas de sorrisos, para te lembrar que hoje não chove.

hoje, neste dia em que cresces, trazes no peito mais do que o teu coração.

parabéns.

a seita no casório

por M.J., em 15.04.16

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 preparados?

pelo dia em que nasceste

por M.J., em 14.04.16

 obrigado.

publicado às 22:09

por que tens um blog M.J.?

por M.J., em 01.04.16

porque posso - anos depois - encontrar num deles quem fui.

perdi o caderno onde anotei a vida.

não perdi a password do pedaço de internet onde expus as anotações da morte.

 

bom fim de semana.

 

"Esta manhã fiquei sentada no carro pasmada, meia hora, antes de vir para o trabalho. Assim, sentada, pasmada, calada, quieta, sem ouvir nem ver nada, só quieta, só a pensar que tinha de me levantar, que tinha de pegar na mala, no casaco, nas coisas e caminhar até aqui e depois sentar-me e ficar aqui, o dia todo a fazer uma insolvência onde entram coisas como letras e livranças.

Foi isso que fiquei a fazer, sentada, meia hora que contei pelo relógio novo que a mamã me deu pela recuperação, pasmada a olhar em frente. Ali sentada, a pensar no quão idiota é a minha vida. No quão absurda se tornou, de um dia para o outro, tudo aquilo que eu acreditava, todas as bases se afundaram e eu fiquei, assim, à deriva, sem pés, nem cabeça, só a andar, para ali, para aqui, a dormir nas horas que devo dormir, a comer nas horas que devo comer, a sentar-me longos períodos na terra, com o gato como minha companhia, ambos os dois, sentados a olhar em frente, à espera de uma resposta qualquer que faça sentido o ter descido onde desci, o abandono a que fui sujeita, os comportamentos que fiz, tudo, tudo, tudo.

Esta manhã fiquei no carro sentada a pasmar durante meia hora. Cheguei atrasada ao trabalho, mas isso agora não interessa, que está tudo de férias, este mês é de relaxamento. Fiquei ali sentada, a olhar as matronas das caravanas a passear os cães e a pensar que antes disto tudo eu também ia ter um cão, mesmo contra a tua vontade. Fiquei sentada a pensar, pasmada da silva, sem ver o tempo, porque não sinto assim a tua falta da maneira que eu achava que ia sentir; porque não tenho o coração tão dilacerado da maneira que eu achava que ia estar. Fazes-me falta. Mas a tua ausência não me parte de angústia, não me mata de dor.

Dói mais este andar que agora ando, este não saber viver que não sei. Este pairar pelo ar, este ser conduzida, por alguém que não eu, acordar, vestir, tomar banho (eu que nem tomar banho queria), vir para o trabalho, comer a sopa ao almoço sempre no mesmo sitio, tomar a medicação, enfiar-me nesta sala durante a tarde a fingir que trabalho, pasmando em frente ao computador, tentando encontrar coisas que me façam viver em vez de andar e depois jantar, tomar mais medicação e dormir.

Não choro. Não rio. Não vivo. Ando. Como num barco à deriva, ando sem pensar no amanhã, no depois, se as coisas estão bem, se o dinheiro chega, se o trabalho está bem feito, se os amigos vão permanecer lá, se a mamã sofre por me ver assim, se estou vestida de verde com roxo, ou se o cabelo está com a franja em frente aos olhos ou encaracolada. Ando. Não quero morrer, eu sei. Mas este andar não é nada.

Quero zangar-me, revoltar-me, chatear-me com esta doença que te levou, quero rir-me até às lágrimas, combinar jantares com amigos, falar com toda a gente, passar manhãs ao espelho a preparar-me, orgulhar-me dos trinta quilos perdidos, orgulhar-me do trabalho bem feito. Quero a velha Maria João, que desapareceu. Mas não sei onde ir busca-la, porque passo meia hora, de manhã, pasmada, sentada no carro, a olhar as matronas a passear os cães.

Andar não é viver. Passar não tempo não é viver.

Estou farta disto.

Acho que começo a fartar-me destas férias emocionais."

agosto, 2012

 


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e agora dá aqui uma olhada