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envelhecer

por M.J., em 26.07.17

ouço caetano veloso.

salta de a luz de tieta para sozinho, você é linda para estou triste, numa aleatoriedade que me põe a cantarolar e a deprimir, consoante o ritmo, uma espécie de carrinhos de choque emocionais, ora uma amolgadela daqui, ora uma risota dali. 

idiota, toda a gente já sabe.

 

acordei muito tarde esta manhã.

como todas as acções têm consequências vou ter de me deitar tarde, também, logo à noite na compensação do tempo dormido. se me desleixar, quando der conta tenho os ritmos de sono todos trocados. parece que acontece frequentemente a pessoas que controlam o próprio tempo ou que, em boa verdade, não o controlam de todo.

tomei o pequeno almoço com as janelas fechadas e as persianas corridas. caetano veloso trauteava leãozinho e eu reguei duas das novas plantas que comprei no fim de semana e pespeguei na cozinha, muito alinhadas e verdes. cheira a manjericão e a outra coisa qualquer que não identifico. o rapaz diz que são de comer, não de decoração, e que eu nunca pensaria em pôr uma batata num vaso como enfeite. 

não quis saber. tenho uma cozinha que começa, aos poucos, a transformar-se numa pequenita selva tropical. 

macaca, pelo menos, já tem. 

 

uns amigos nossos compraram agora casa.

ele, nerd típico que passara uma vida em frente a jogos de computador, que prefere férias no inverno para não ter de sair e ficar a aproveitar as horas como mais gosta, entrou nos trinta, esta idade tão mimosa e revolucionou meia existência.

no sábado passado fomos encontrá-lo no terreno atrás da casa, sentado num tijolo a grelhar carne, o cão sentado ao lado com ar de quem encontrou o nirvana, a contemplação da sementeira da tarde e uma dúzia de galinhas num anexo à esquerda.

aí estás tu! exclamei perante aquela imagem idílica, o homem e o cão e a carne e todo um terreno com plantações e árvores de fruto do anterior proprietário, o poço e as galinhas, aí estás tu no sonho do homem. tivesses dois putos a jogar à apanhada e a tua namorada num vestido vaporoso e eu dizia que isto era um filme digno de um óscar.

ele sorriu, um sorriso longo que nunca lhe vira. 

feliz.

 

ali estava ele, constatei depois, quando no dia a seguir me sentei no poiso habitual, a minha cadeira que começa a envelhecer, a varanda larga que me permite ver uma fileira de árvores em frente, uma vista que não encontraria em muitos mais lados e o silêncio dos vizinhos estranhamente calmos no último mês. estarei a ficar surda? perguntei ao rapaz com medo, uma pessoa nunca sabe. mas parece que eles é que estão de férias.

ali estava ele, sentado no sonho, a casa que não é nova mas é dele, as caixas ainda espalhadas que permanecerão por meses até tudo estar na devida ordem, o cão que vivia numa varanda agora dono e senhor de tanto metro quadrado, as galinhas a crescer, olha lá, pergunta o rapaz com ar de descrença de quem viveu na aldeia meia vida mas poderia, perfeitamente, ter sido criado num t2 duplex e tratado por bernardo, quem é que vai matar aquela animalada toda? ou são de estimação?

e o nosso amigo, um ar de quem encontrara o paraíso, ombros encolhidos, resposta tranquila, "eu, ora essa!"

tudo resolvido.

pelo menos até ao momento em que ele perceber que matar significa pegar numa faca, cortar pescoço, não deixar a galinha fugir decapitada pela relva, depenar com água a ferver e abri-la tirando entranhas ainda quentes. 

nessa altura logo se verá. 

 

gostava de ter certezas, concluo enquanto caetano veloso enche o escritório de você não entende nada. 

olho para quem me rodeia e para quem fui e tudo me parece muito límpido.

as pessoas caminham com uma garra de quem sabe exactamente o que quer e eu vou ficando para trás.

perdi a distinção entre o que acho que queria e o que quero, na verdade. e começam a ser muitas as vezes em que, depois de vivenciar algo que jurara querer muito, me questiono depois, num ar de tédio "ah, era isto?". como daquela vez em que querendo muito ir à feira popular, a ideia das luzes, das cores, da agitação, da vida, das pipocas, do cheiro do algodão doce, o ar fresco da noite em frente ao rio numa noite de verão, a música, as conversas e as pessoas, passei por lá vinte minutos, num resmungar constante de encontrões, música demasiado alta, pessoas que se encolhiam perante outras, uma agitação descomunal de festa, cheiro a fritos e pó, gente que mijava para o rio e saí dali muito rápido, atropelada por carrinhos de bebés, pessoal que me fumava para as trombas e senhores políticos que aproveitavam a cena para pré-campanhas de corrupção.

deus! afinal também já não gosto de feiras populares.

é isto envelhecer ou sou eu que não o sei fazer?

 

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medos

por M.J., em 13.04.17

há poucas coisas que despreze mais do que a ideia de que os pais são mártires em função dos filhos.

o sentimento de alguns progenitores, tão generalizado ultimamente, que ouço e leio e vejo, numa espécie de moda contagiante e perigosa de:

* ah, as coisas que eu faço por eles!

* ah, como me mantenho neste trabalho horroroso porque tenho filhos!

* ah, que não me divorcio porque os meus filhos precisam de uma mãe/pai!

* ah, que não leio porque tenho todo o tempo todo ocupado com os filhos!

* ah, que não viajo porque tenho de canalizar todo o dinheiro para os meus filhos!

* ah, que apanho porrada no lombo mas não saio por causa dos meus filhos!

*ah!

 

este sentimento dominante de que o que eu faço está condicionado por um ou dois ou três ou uma equipa de futebol de filhos que pus no mundo é feio, sobretudo se passado para aqueles por quem se é, supostamente, mártir.

escrevo e sinto isto unicamente através da minha posição de filha. e sei, como toda a gente, que a maternidade e a paternidade exigem uma série de sacrifícios, uns maiores, outros menores. faz parte como faz parte todo o amor. sacrificamo-nos, numa ou outra questão, quando amamos. pomos de lado pouco ou muito ou quase tudo de nós - dependendo da forma que somos e vivemos e sentimos - em função do outro. repito, faz parte.

o que não faz parte é colocar nos ombros do outro o peso da nossa decisão de sacrifício. o peso do que amamos.

o que não faz parte é dar ao outro, num indício aqui, num indício ali - sobretudo daquele de quem se é progenitor - uma série de decisões cobardes que se assumiu como dominadoras da vida.

o que não faz parte é colocar na cabeça do outro que a sua existência provoca tanta coisa menos boa. mesmo que se jure a pés juntos que se ama. mesmo que se diga - sentindo - que se morria em função do outro: de que raio vale morrer pelo outro se todos os dias se vive uma existência miserável - a que o outro assiste - e que provoca dores de morte pela culpa que provoca? 

 

em última instância a decisão de ser mãe/pai está em quem o decidiu fazer. é a lógica da batata mas a nossa vida é consequência das nossas escolhas, por mais pequenas que sejam, por mais banais que possam parecer. e se não pensamos nisso na maioria das vezes, comandados por um instinto de sobrevivência que nos impele a seguir sem questionar ou fazer um resumo de todos os e ses, é estupidamente repugnante quando, directa ou indirectamente, incutimos no outro que permanecemos, que ficamos, que sofremos porque amamos tanto.

é ridículo.

é obtuso.

a decisão de permanecer numa relação, de ficar num trabalho, de ter uma casa minúscula, de não viajar, de não ser feliz é sempre, em última, instância de quem decide e não do condicionante.

a decisão de permanecer numa relação abusiva é de quem escolheu aquela relação e tem medo ou pavor ou incapacidade de se mover, usando como escudo protector um ou dois filhos. e incutindo, mesmo sem querer, que a responsabilidade da sua infelicidade é do condicionante. e quando o condicionante voa e sai de casa e há mil oportunidades de sair também, permanece-se porque "é demasiado tarde, porque quando era possível sair havia filhos e não se podia!".

isto não é amar. ou pelo menos é um amor egoísta que provoca traumas inimagináveis naqueles que sendo os "condicionantes" precisam de lidar com uma culpa que não é deles. 

 

há poucas coisas que mais despreze do que mártires por opção e que sendo mártires decidam colocar a responsabilidade do seu espírito de messias na existência do outro.

e é por isso - também - que tenho tanto medo de ser mãe. 

 

 

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deu discussão! (quase porrada)