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tradições

por M.J., em 13.01.20

o fim de semana estava planeado há muito tempo:

uma das pessoas que mais gosto no mundo vinha jantar comigo no sábado, íamos na tradição ao são gonçalinho beber uns canecos, passava a noite cá em casa e almoçávamos todos no domingo.

e depois, à tarde, íamos os 3 a uma festa de aniversário surpresa de um familiar. 

ia ser giro. 

planeei sobretudo a noite de sábado há meses.

há qualquer coisa de único em sabermos que aconteça o que acontecer aquela é a nossa noite, há amizades antigas (as verdadeiras nunca são antigas) que permanecem e certas que coisas na vida que não mudam.

 

pois.

na quinta, quatro dias depois de ter ido para a creche depois das férias, o miúdo chegou-me a casa com os sintomas habituais de bicheza: olho remelentos, pouca vontade de comer, uma necessidade de colo que normalmente não tem.

ficou em casa, pois claro, na sexta. pensei que estava recuperado. andou de triciclo no pátio comigo e tudo. 

no sábado, de manhã os primeiros sintomas que a coisa não estava bem: febre de 39.6 e um choro constante.

quis levá-lo à urgência, logo. o rapaz não quis. que era cedo. pois sim, pensei, cedo o catano.

ainda assim esperei e a coisa não mudou.

 

às quatro da tarde percebei que tinha de desmarcar jantar e saída. não estava particularmente triste com isso porque, na verdade, estava preocupada com a febre do catraio que não descia.

do outro lado total compreensão. e preocupação. 

depois dessa hora foi sempre a descer (não a febre, mas a situação, em relação à merdosa de vida):choro, febre, vómitos, tosse, tremeliques, discussões entre mim e o pai da criança se devíamos ir ou não ao médico. esperar os 3 dias pode ser útil para o SNS, para mim é estúpido. chegamos a um consenso: íamos no domingo de manhã.

deitei-me com um amargo de boca, e de alma (e de cabeça e estômago, depois de limpar vomitado em várias divisões da casa):

afinal as tradições não são imutáveis.

afinal não existe o "aconteça o que acontecer".

não jantei alarvemente, não tirei fotografias giras para pôr no instagram, não ri de parvoíces e recuperei o tempo antigo. em vez disso deitei-me angustiada, preocupada e triste e acordei de hora a hora para acalmar um bebé doente.

senti uma imensa solidão e tristeza.

por ele, por estar sempre doente.

por mim. por nós.

tenho um medo terrível de nos perdermos no meio disto tudo. e não é pelo raio das cavacas nas trombas, pela multidão aos encontrões, por uma foto gira nas redes sociais.

é - sobretudo - pela sensação de que não controlarei, jamais a partir de agora, nenhum segundo da minha vida. e isso custa, cansa. chateia.

 

no domingo hospital com a criança.

depois de uma hora à espera (às 8 da manhã ainda não há muita gente doente, parece) o diagnóstico: otite, amigdalite, antibiótico para o bucho. 

passamos o domingo em casa, e aqui estamos, mais uma semana de quarentena, à laia de jogadores do vitória de setúbal.

estou pronta, que remédio, para pôr o trabalho em segundo plano, derrapar prazos, colocar coisas em segundo plano e seguir, nesta coisa engraçadíssima que é a vida.

não há outro remédioou antibiótico possível.

mas tudo isto deu-me a certeza (que já andava como que a marinar mas na dúvida) que a criança vai ser filho único. ponto. sem qualquer alteração possível pelo menos da minha parte.

se já é difícil controlar a vida com um, imagino lá como será com dois. 

a fábrica fechou, demos graças por isso. 

publicado às 10:10


3 comentários

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De Raven a 14.01.2020 às 11:15

E é por essas e por outras que eu não me imagino a ser mãe!

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e agora dá aqui uma olhada