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vergonha

por M.J., em 20.07.16

se  há coisa que a dor consegue fazer é transformar alguém num egoísta com pós-doutoramento na matéria.

por mais altruísta que seja, por mais que tenha sido educado para vivenciar uma vida de entreajuda e comunhão, a dor profunda, cega, a dor de uma doença emocional, mental, a dor que destrói sem grande explicação transforma o nós em eu. o eu em só eu. transforma as dores do mundo na minha dor. transforma desesperos, desgraças, atrocidades, catástrofes em uma só frase: eu sofro mais que isso e se ao menos alguém o conseguisse ver.

a dor da doença, da desesperança, do desamor, da frustração, de estar vivo transforma qualquer um num egoísta de primeira e, acrescento sem medo, bastante desprezível.

é verdade: eu passei por isso. fui, durante anos uma treta doentia, em pragas de escuridão a gritar ao mundo que merecia menos dor mas não mexendo uma palha para parar de me autodestruir.

vendo ao longo dos anos juro que não sei como alguém ficou do meu lado. sinceramente, acho que eu própria não ficaria. tenho pouca paciência, quase nula, para autos de compaixão, para maleitas sem justificação, para egoísmos de "a mim dói mais que a qualquer um". talvez exactamente por isso, por ter descido a qualquer poço que não tem nome, perdi a capacidade de sentir compaixão pelo outro em dor semelhante à minha doutrora.

o que, vamos pôr as cartas na mesa, me transforma numa pequeninita cabra.

não que não entenda.

entendo e assumo o manto negro do eu-que-me-doo-mais-que-qualquer-outro mas não tenho a capacidade nem paciência de trabalhar esse eu. posso, de alguma forma, estender duas palavras ou uma conversa inteira. posso assumir que sei o que se sente. posso perceber e dizê-lo. mas não tenho a paciência necessária para ajudar a curar.

noventa por cento da minha recuperação saiu-me das entranhas. uma merda. se soubessem metade da porcaria que fiz para me tornar gente de novo estendiam os braços ao céu. não tive outro remédio. depois de descer tudo não há grande opção a não ser subir. ou ficar lá deitada o resto da vida mas, sendo franca, não se compadece muito com o que sou morrer no mesmo sítio sem grande alarido: ou morria aos gritos ou morria a tentar não morrer. 

assumo os pedacitos de melancolia que me tomam de assalto, às vezes, como consequências inevitáveis e eternas da minha eternidade e tento lidar com isso. mas não consigo, jamais, sentir empatia pela profundidade das melancolias eternas dos outros.

sobe-me uma raiva que me queima em chamas pela autocompaixão.

sinto comichão nas mãos, uma vontade louca de as estalar com força nas trombas do "coitadinho-de-mim-que-me-dói-tanto".

apetece-me esborrachar narizes ao egocentrismo que a dor provoca no ser, incapaz de olhar o outro na sua "eu não presto, eu não sirvo para nada, eu devia morrer".

descobri há uns tempos o porquê disso:

revejo-me nesse comportamento e sinto uma tremenda vergonha de mim.

oh vai ver ali:

publicado às 14:10


1 comentário

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De Sofia com fibra a 20.07.2016 às 14:56

Revejo-me nisto! Por muito que me custe admitir. Por vezes apetece bater-me de tão fraca que sou.

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e agora dá aqui uma olhada