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XI.

por M.J., em 22.09.15

A primeira vez que o vi senti ódio. Sabia das coisas do amor o que lera às escondidas em livros roubados da biblioteca do casarão. Não entendia as descrições dos corpos. Dos arfares e gemidos. Não entendia o significado da palavra volúpia, paixão, luxúria. Os únicos sentimentos que jamais conseguira sentir foram o amor por ela, a amizade e agora o ódio. Vira trevas, desertos de dor, luzes cortadas por raios inexplicáveis em visões mas nunca sentira um verdadeiro ódio.

Não como o que sinto agora.

Ele veio à tardinha, uma semana depois, quando a deixaram sair ao pátio para apanhar sol. Aos poucos focamos ganhando uma rotina. Deixaram-nos até em paz. Nada de choques. Nada de cortes. Nada de porrada. Desde que comêssemos, dormíssemos, não fizéssemos barulhos. Às vezes falavam connosco. Ouvi alguém dizer que estávamos histéricas. Deixavam-nos conviver com os outros, que por ali andavam, desde que não os perturbássemos.

Eu jurara-lhe não fazer nada que nos mantivesse aqui mais tempo por isso não dizia a ninguém o que via, em sonhos ou quando me perdia em transes.

Quando ele chegou eu sentei-me. Foi pela primeira vez, creio, eu nessa tarde, que senti inteira consciência do meu corpo. Percebi os ossos bicudos por baixo do meu peito. A ausência de seios ou ancas. Soube que tinha o cabelo cheio de nós e tomei real consciência das minhas olheiras, negras, debaixo dos olhos.

Soube que ele me via como uma animal, enjaulado e quase esperei que levantasse o braço e me batesse, na esperança de me tornar melhor.

Não o fez:

- Ainda não falamos, pois não? - Sentou-se no chão, ao meu lado, sem medo de se sujar na enxerga velha. Não me tocou, num respeito ou nojo, não conseguia perceber. - Quis dar-te algum tempo para que te adaptasses aos nossos hábitos, às nossas maneiras de fazer as coisas.

Quis cuspir-lhe. Habituar-me à maneira que eles fazem as coisas: baterem em duas miúdas, que não se podem defender, sujeitá-las a choques eléctricos, calá-las pela força. Era, de facto, uma maneira.

- Talvez não entendas – ele continuou, quase num jeito sedutor, segurando com cuidado a madeixa de cabelo que ela reforçara todas as vezes que o descrevera – mas há coisas que são… uma anormalidade. A natureza engana-se, às vezes, quando estamos dentro do ventre. Há quem diga que é Deus, a castigar os pais pelos seus castigos. Não creio. São problemas. Doenças. Tu e a tua irmã, talvez por partilharem o mesmo ventre da vossa mãe nasceram com essa deformidade. Não gostas pois não?

 Debruçou-se sobre mim, quase lhe conseguia sentir o hálito, fresco, adocicado.

- Não gostas de ser diferente, pois não? Duas meninas tão lindas, tão ricas. Podem ainda casar, ter filhos, contribuir para a natureza do mundo e dar uso ao que a natureza quer para vós.

Olhei-o cada vez com mais desconfiança. Sentia a mão dele, magra, a segurar-me o braço como uma garra que vira em sonhos. Tinha plena noção dele, do corpo, debruçado sobre mim e da minha fragilidade e total impotência. Que poderia fazer eu se ele me quisesse matar? Se me matasse?

Ele levantou-se pouco depois:

- Vais ficar boa, garanto-te. Mas antes disso, vamos ver se tens préstimo para ser uma boa mulher.

Olhei-o sem compreender.

- Não te preocupes. Só doerá hoje. Depois passa.

 

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publicado às 15:00


8 comentários

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De Me, myself and I a 22.09.2015 às 15:52

Já estava com saudades! Regressou em grande!
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De M.J. a 23.09.2015 às 10:20

muitos mercis. a bola está agora do lado da neurótika.
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De Dama de espadas a 23.09.2015 às 09:16

Uuuuuoooooouuuuuu
:)
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De M.J. a 23.09.2015 às 10:20

isso é bom?
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De Dama de espadas a 23.09.2015 às 14:04

Muito bom...
Pulgas pulgas para ler o que se segue...
Eu sei que as autoras são dark mas quero um bom final para estas meninas ta? Quero que a anormalidade delas não seja um castigo como é na vida real
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De M.J. a 23.09.2015 às 15:56

ahahahahahaha
isso tens de ir pedir à neurótika. ela é que é a durona da coisa.
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De Me, myself and I a 01.10.2015 às 17:02

E o do dia 29/09????
Vocês levam isto a brincar, mas para mim esta é uma situação muito séria!
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De M.J. a 02.10.2015 às 15:06

tens razão, porra. tens razão. na próxima terça cá estará, a tempo e horas.

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e agora dá aqui uma olhada